Recordo os roseirais do tempo, as esmeraldas, as suas memórias
o verde é a cor das árvores seculares impenetráveis
ouço as noites cantar pelos campos dentro dos cedros
a morte acende dois castiçais movendo a pupila dos olhos
de um lado para outro há um agitar alto de crateras
a lua abre os lençóis da luz aos lábios dos vulcões da noite
poemas que se entranham noutros poemas dentro da aragem
e fundem-se as vozes dos jardins das corolas
luz inesgotável face da água
anjos da eternidade pedalando para sempre
e cantando em violinos aéreos no perfume dos lilases
encontro-me na posição da chama que se desliga do corpo
sou uma paisagem vertical e grande
atravessada por um instrumento cirúrgico
sou uma limalha de sons uma borboleta ávida
que magneticamente atrai outras palavras ao tacto e à vidência
um renascimento uma lembrança uma vocação tremenda
pontos de água e fogo alimentam a boca-ânfora de uma criança
amor é o seu nome , um abstracto nome.
em grandes bosques de silêncio eu amo esta criança
dentro da aurora infantil dos seus dedos
pelas ramagens verdes o fresco fulgor das galerias de sombras
o mistério atravessa-a numa pedra acesa
da sua boca brotam o arbusto de um relâmpago, uma flecha
em todo o seu lento e científico esplendor
oh secretos lábios da minha amada infância
que rebenta em magnólias incendiadas em flor
e quando me inclino sobre os diques dos poentes
o fogo me recolhe em seus barcos de licor e mel
caio brutalmente latejando numa gruta aberta
perdida entre as altas torres das cidades
e as suas negras portas
os objectos parecem vozes nas pontas dos lápis
lá fora os semáforos estão cheios de fórmulas
apagamos as mãos mutilando os gestos
pela noite descem rosas brancas de neve nos bosques
corro então alucinadamente para onde sou visível
os meus gritos mostram raras jóias na chaminé das casas
milhares de homens passam incessantemente
é nas palavras que me deposito em cinzas
uma raiz da noite aprende a respirar. estou acordada
vejo com outros olhos as aves e a pupila dos astros
dom que ascende da clareira dos bosques maria azenha
Tivemos de atravessar o silêncio
queimar a boca com uma rosa de sangue
morder os vidros do vento
sulcar com alguma exactidão o branco.
firmar uma lança de água no manto dos vales
abrir o coração dos lírios
beber a nuvem no âmago dos cisnes
descer à inscrição do linho
- aprendizes de ritos na flauta das aves -
e aí tudo refulge na ciência da sede
tudo é alucinação
fonte
gruta
lago
árvores de bondade e música
porque és o arbusto a montanha a águia e o riso
a rosa da paisagem a túnica do mundo
o fio do caminho
oh verde mão de musa maria azenha
Na parede da sala o luar fez descer a sua pequena música
em sereias e medusas no anel branco da noite.
é então que estremece,cintilante na areia,a praia nua
em seus cavalos brancos de sombras e de espuma.
e unindo uma a uma suas crinas de brancura
onde pousam abelhas de prodígio por detrás das dunas
o vento e o mar em vultos me procuram, não se cruzam.
no centro permanecem sem imagem nem colunas.
e espelhos de silêncio e ausência me recusam,
e muros de navios me reflectem e ressoam
na sala atravessada por um fio a prumo,
que corre eternamente para o fim do mundo