(Com os meus agradecimentos a F. Gonzalez,
pela elaboração e autorização dos textos que prefaciam este livro.)
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DO BOSQUE
O bosque, a selva, ou a natureza selvagem e virgem, oferecem-nos um cenário simbólico da nossa própria natureza interna e externa, superior e inferior, seja em seu sentido primordial de exuberante fecundidade, seja em seu aspecto grosseiro, inculto e heterogéneo (o infraconsciente), em ambos os casos, um cenário feminino telúrico.
Em muitos povos e culturas, o bosque ou a selva adquire um papel muito importante e significativo quanto ao lugar reservado ao culto, às iniciações e à contemplação.
Os mitos e lendas antigas estão cheias de alusões a bosques mágicos, onde transcorre a trama dos seus argumentos e onde em geral habitam seres, ou entes, não humanos, cuja relação com os heróis e os homens está vinculada simbolicamente ao próprio processo alquímico e espiritual.
O bosque é como uma arca viva e em processo perene de criação.
Como templo natural e espaço sagrado, oferece-nos dentro da sua imensa riqueza de matizes (a fonte, a gruta, a mina, a montanha, etc.), inesgotáveis temas de meditação. Toda uma cosmogonia que nos fala simbolicamente da fauna, da flora e da topografia da nossa própria natureza interna e invisível.
Efectivamente, a verticalidade de árvores e troncos, a horizontalidade dos ramos, e a densa presença de plantas, flores e folhas, conformam um tecido análogo ao da quotidianidade e suas veredas, dentro de cuja complicada espessura existem, não obstante, clareiras e fissuras pelos quais penetra a luz.
DO VEGETAL
A vegetação do bosque, na indefinida variedade das suas espécies, formas, cores e fragrâncias, constitui um mundo inesgotável de significações simbólicas conhecidas por todos os povos desde a mais remota Antiguidade.
Recordemos, neste sentido, que o Paraíso terrestre é descrito como um jardim ou um vergel, ao cuidado do qual estavam os primeiros homens. Por este motivo, a agricultura (a "cultura do agro") é considerada como o primeiro ofício nascido da sedentarização da humanidade, que dá lugar à aldeia e posteriormente à cidade em pedra e à civilização tal qual a conhecemos. Não esqueçamos que a palavra cultura deriva precisamente de “cultivo”, o que está relacionado evidentemente com o vegetal. A isto se deve, sem dúvida, o porquê do homem arcaico e tradicional ter incorporado o vegetal na descrição simbólica da sua cosmogonia e da sua visão sagrada do mundo.
Efectivamente, nada há que expresse melhor o desdobramento da vida universal do que uma planta em seu pleno desenvolvimento, como por exemplo a árvore, que é também um dos símbolos naturais mais difundidos do Eixo do Mundo, e o que mais claramente alude à estrutura cósmica e aos seus diferentes planos ou graus de manifestação.
Basta recordar a Árvore da Vida Sefirótica, semelhante, quanto à sua significação essencial, a outras muitas árvores sagradas pertencentes às mais diversas tradições de todos os tempos e lugares.
A mesma função simbólica desempenham determinadas flores, como o lótus nas tradições orientais e a rosa ou o lírio nas ocidentais. Todas elas são símbolos do Centro e do Mundo, e o abrir das suas pétalas expressa o desenvolvimento da manifestação a partir da Unidade primordial, por isso também que estejam relacionadas com o simbolismo da "roda cósmica", estando o número de pétalas em correspondência com os “raios “que conectam o centro da roda à sua periferia.
Não esqueçamos que as flores em geral estão vinculadas ao simbolismo da copa, e por conseguinte ao aspecto passivo e receptivo da manifestação, à pureza virginal da "quintessência", por exemplo quando se fala do "cálice" de uma flor.
Dos três reinos da natureza, o vegetal é quiçá o que está mais directamente unido ao fluir dos ritmos e ciclos do Cosmos, reflectidos na renovação periódica e anual das plantas, na regeneração da potência fértil e fecunda da sua seiva, propiciando desta maneira a alimentação e o sustento necessário a homens e animais.
“As plantas são a própria expressão do Cosmos visível e do próprio Homem no caminho para a perfeição.
Elas estiveram sempre relacionadas com o destino dos homens. A percepção visível da árvore corresponde à percepção do nosso próprio mistério.
As plantas participam do visível e do invisível, este pelas suas raízes.
A sua fragilidade e a sua força podem ter uma analogia com as dos homens.
Uma árvore está na copa e na raiz, no tronco, nas folhas, sendo um estímulo à nossa energia vital, ao nosso pensamento com a infinidade da sua folhagem e o nosso destino está fundido numa única vida e diverge em numerosos ramos.
As plantas são dotadas de todos os conhecimentos e plenas de todos os símbolos. “
(…)
As chamadas "plantas sagradas", utilizadas nos ritos de iniciação aos mistérios, e cuja ingestão (bebida ou comida) põe o ser em comunicação com os seus estados inferiores e superiores, realizando a "viagem" pelos diferentes planos de manifestação, descendo e ascendendo pelo Eixo do Mundo.
Essas plantas seriam, pois, um suporte ou veículo de Conhecimento, e em muitas ocasiões a própria planta, ou o seu fruto, consideram-se unidos ao objectivo de conseguir aceder ao dito Conhecimento, por isso a expressão "licor de imortalidade" ou "fruto de imortalidade" que recebem determinadas substâncias vegetais, como por exemplo o vinho ou ambrósia nas culturas greco-romana, hebraica, cristã e islâmica, semelhante ao soma ou amrita indiano, idêntico por sua vez ao haoma dos antigos iranianos.
Igualmente na Alquimia vegetal se fala do "elixir de longa vida", que corresponde á "pedra filosofal" na Alquimia mineral, sendo o elixir a essência própria da planta, como o vinho é a essência da videira, outra figura do Eixo do Mundo.
Também há que mencionar o trigo (equivalente ao milho nas tradições pré-colombianas, ou ao arroz entre as extremo-orientais), e em consequência o pão, que juntamente com o vinho constituem as duas espécies eucarísticas do Cristianismo, ou seja do corpo e do sangue, ou a substância e a essência reunidas no Verbo ou Homem Universal, arquétipo do iniciado, o que é comparado precisamente a uma planta, tal e como indica a palavra "neófito",que tanto significa "novo nascido" como "nova planta".
Este é, desta forma, comparado a uma semente ou germe que tem de "morrer" no interior da terra para renascer no mundo de cima e da luz, que é sua verdadeira origem pois, ao contrário do vegetal, o homem tem as suas "raízes" no Céu, tal e qual nos relata Platão no Timeu quando diz que :
"o homem é uma planta celeste, o que significa que é como uma árvore invertida, cujas raízes tendem para o céu, e os ramos para baixo, para a terra".
(...)
2 comentários:
há obras que não se devem comentar ... fazê.lo ,antes da sua apalpação//leitura//fruição ,constitui ,de certo modo ,a sua mutilação
incapaz de resistir ao belo - qual borboleta à volta da luz - não sou capaz de ficar indiferente a estes textos ( prefácio ) e à sua escolha
escrever mais do que isto - PURA BELEZA - é profanar um espaço que ,desde o primeiro símbolo ,se quer diáfono
não me é nada difícil ,após esta leitura ,imaginar.te Daphne ......
continuarei lendo ... vendo ... sentindo .se for capaz ,comento .se não rendo.ME
e
parabéns por mais esta obra ( não prima porque irmã )
.
um beijo
"o homem é uma planta celeste, o que significa que é como uma árvore invertida, cujas raízes tendem para o céu, e os ramos para baixo, para a terra".
Impossível macular com um comentário, tão intangígel postagem.
Belíssima!
Mirse
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