LITERATURA
DE AMOR ARDEM OS BOSQUES
Esta é a última obra de Maria Azenha. Apresenta-se com um título muito belo sendo a capa e a badana, de grande qualidade plástica, da responsabilidade de Remédios Varo.
Inicia-se com cinco extra-textos da obra Introdução à Ciência Sagrada, conjuntode textos coordenados por Federico González.
A obra propriamente dita está dividida em cinco partes (cinco folhas):
1.Da inteligência dos bosques;
2.Da ciência dos bosques; 3.Das sombras dos bosques; 4.Das clareiras dos bosques e 5.Do coração dos bosques.
Os pré-textos de Federico González que, de algum modo, preparam a obra de Maria Azenha têm títulos todos referenciados à natureza: do bosque, do vegetal, da montanha e da caverna (gruta), da pedra e finalmente do nível e do prumo.
A natureza foi desde sempre um tema muito utilizado pelo homem já que há um óbvio relacionamento do homem com ela, natureza que lhe fornece,aliás, uma rede de simbolismos que interpretam ou ajudam a interpretar a própria vida dos humanos, quer no seu viver individual, quer no seu viver colectivo.
É curiosa a divisão proposta por M. Azenha: na verdade, subjacente a todo o conhecimento está a inteligência, substrato indispensável à razão (ciência dos bosques) e aos sentidos (coração dos bosques). Acrescente-se a isto o lado diurno (clareiras dos bosques) e o lado nocturno (sombras dos bosques) e temos aqui uma pertinente visão da vida humana metaforizada pela árvore (unidade sem a qual não existiriam bosques).
O bosque é pois o equivalente gregário da sociedade e a árvore assume os dois sexos e bem assim o seu carácter de complementaridade e de conflitualidade.
Realmente, a árvore assume um carácter feminino, matricial, através das suas raízes que mergulham na terra e um carácter masculino pela sua posição erecta, símbolo fálico que contribui para a fertilidade do mundo.
Não destoará aqui, penso eu, citar Eugénio de Andrade que escreveu: um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo. Esta lição (de Eugénio de
Andrade) bem a entendeu M. Azenha.
Há nesta obra três vocábulos, árvore, luz e silêncio que aparecem com uma frequência significativa.
Há entre elas relações de grande proximidade que exprimem, quer nas epígrafes (de Juan Ramón Jiménez, por exemplo), quer nos versos de M. Azenha (logo no primeiro poema, p. 29): à luz da lâmpada do anfitrião da casa / o voto de silêncio é um pequeno lume […] ou no da p. 30: Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio […]. No poema VI (p. 34) a autora descobre um pouco o véu do seu fabbro:
[…] abrigo-me entre árvores prestes a
parir gritos em flor / na materna ciência do silêncio / onde só o amor flutua. Isto é, o amor, o grande motor do mundo, precisa de uma vertente vegetal, aqui simbolizada pela árvore, e de silêncio, o silêncio propiciatório à grande intimidade.
Apesar deste sentimento que é um sentimento que só tem sentido se partilhado, o poeta volta sempre à nuvem da sua solidão; isto o diz a autora no poema da p. 45. Ainda assim, apesar da “sua solidão” […] a um poeta é reservado // o alfabeto / uma árvore / o fogo.
Os poemas da terceira folha, Das sombras dos bosques, são o contra-ponto do perfil luminoso que se destaca nas duas primeiras folhas.
Logo no primeiro poema (p. 55) M. Azenha assume-se como o relâmpago ferido para no poema seguinte afirmar Desde que a luz se fez artificial ficámos órfãos / juntaram-se nas cidades os solitários / para pôr em comum a solidão.
O tom de desencanto e até de denúncia de um tempo hostil mantém-se: […] O rapaz cheio de saúde /
perde o trabalho, / sai de casa, fica ao frio da rua, / torna-se um sem-abrigo. (p. 57) e de forma porventura mais contundente no poema da p.59: Esperava apenas a tigela da sopa/ […] vi-o nas escadas do metro/ […] e quando alguém não suportou mais e disse: / “quem é que responde por isto?”/ ignorámos as escadas do metro / ignorámos o rosto que esperava apenas / uma tigela de sopa […].
Não resisto à tentação de transcrever na íntegra o poema da p. 62, porventura o poema mais dramático desta obra:
Pertencemos a uma geração sem brinquedos a sério.
os avós morreram. fecharam-nos para sempre em livros.
do coração dos poemas extraíram petróleo,
fizeram dos barcos uma metáfora para cegar os olhos.
silenciosos e fractais os relógios de
ausentes cais
circulam sem gritos nas metrópoles
não há quem nos faça acreditar em bonecas de trapos
nem em trapezistas de madeira para sonhar…
ficámos todos tão velhos
Apesar destas “sombras” há ainda lugar para alguma luz; ela confina-se, a meu ver, na memória e no sonho como se pode ver nalguns poemas das duas últimas partes.
Por exemplo, no poema da p.74
existe uma reiterada reflexão sobre o passado:
Faz tempo as algas tinham braços […]
faz tempo cruzavam a eternidade as bagas e os corais […] faz tempo os amantes vinham partindo e chegando à nave do dia […] faz tempo os humanos percorriam as pálpebras dos bosques […]
Termino com a citação do poema da p.75 onde me parece claro o desejo do sonho, a eterna procura, nunca encontrada, do outro lugar, da u-topia: Canto a luz / o silêncio triunfante da mão esquerda dos bosques / os abetos e as pedras as núpcias da manhã / as suas alongadas sombras surpreendidas pelo piano das fontes / - cantante coração de águas exiladas. […]
Creio ser esta a melhor obra de poesia de M. Azenha. É verdade que não conheço tudo quanto escreveu mas reconheço que há um salto qualitativo, para melhor, entre Chuva nos Espelhos (de resto uma obra de qualidade) e este De amor ardem os bosques.
Luís Serrano
professor universitário
in "AS ARTES ENTRE AS LETRAS", nº22
24 março 2010
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