Terça-feira, 19 de Julho de 2011

quarta folha - poema I




Recordo os roseirais do tempo, as esmeraldas, as suas memórias
o verde é a cor das árvores seculares impenetráveis
ouço as noites cantar pelos campos dentro dos cedros
a morte acende dois castiçais movendo a pupila dos olhos

de um lado para outro há um agitar alto de crateras
a lua abre os lençóis da luz aos lábios dos vulcões da noite
poemas que se entranham noutros poemas dentro da aragem
e fundem-se as vozes dos jardins das corolas
luz inesgotável face da água
anjos da eternidade pedalando para sempre
e cantando em violinos aéreos no perfume dos lilases


encontro-me na posição da chama que se desliga do corpo
sou uma paisagem vertical e grande
atravessada por um instrumento cirúrgico

sou uma limalha de sons uma borboleta ávida
que magneticamente atrai outras palavras ao tacto e à vidência
um renascimento uma lembrança uma vocação tremenda



pontos de água e fogo alimentam a boca-ânfora de uma criança
amor é o seu nome , um abstracto nome.
em grandes bosques de silêncio eu amo esta criança
dentro da aurora infantil dos seus dedos
pelas ramagens verdes o fresco fulgor das galerias de sombras
o mistério atravessa-a numa pedra acesa
da sua boca brotam o arbusto de um relâmpago, uma flecha
em todo o seu lento e científico esplendor
oh secretos lábios da minha amada infância
que rebenta em magnólias incendiadas em flor

e quando me inclino sobre os diques dos poentes
o fogo me recolhe em seus barcos de licor e mel
caio brutalmente latejando numa gruta aberta
perdida entre as altas torres das cidades
e as suas negras portas


os objectos parecem vozes nas pontas dos lápis
lá fora os semáforos estão cheios de fórmulas
apagamos as mãos mutilando os gestos
pela noite descem rosas brancas de neve nos bosques

corro então alucinadamente para onde sou visível
os meus gritos mostram raras jóias na chaminé das casas
milhares de homens passam incessantemente
é nas palavras que me deposito em cinzas

uma raiz da noite aprende a respirar. estou acordada
vejo com outros olhos as aves e a pupila dos astros
dom que ascende da clareira dos bosques


maria azenha

5 comentários:

lupuscanissignatus disse...

insaciável

labareda



[lastro
para um
voo maior]


*afecto*

Graça Pires disse...

Criamos clareiras nocturnas para que a luz nos devolva o regozijo íntimo da vida...
Um belo poema, amiga.
Beijos.

Mel de Carvalho disse...

"sou uma limalha de sons uma borboleta ávida",

por vezes assim me sinto... Maria, vou imprimir e ler. o poema é belo em demasia para que apenas o faça aqui - tenho uma relação táctil com as palavras, necessito senti-las, por instantes minhas, sob os meus olhos, os meus dedos e, nalguns momentos, sob sorrisos ou lágrimas.

um abraço de gratidão
Mel

Lídia Borges disse...

Grata por este momento.
Intenso e belo!

L.B.

MJFortuna disse...

Muito obrigada pelo repouso na núsica e na poesia...

Um grande abraço


Maria J Fortuna