Terceira folha
DAS SOMBRAS DOS BOSQUES
" Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo"
(...)
António Ramos Rosa
I
Sou o relâmpago ferido
que se move para os grandes bosques do silêncio
meu peito levanta-se e cai
infinitamente só
há um búzio triste no crepúsculo das ilhas
quando fecho os olhos chove
II
Desde que a luz se fez artificial ficámos orfãos
juntaram-se nas cidades os solitários
para pôr em comum a solidão
- fumadores de papel, como teria dito Pavese -
puxados pela corda negra da fome
há livros de olhos postos no corpo. vêem-se de noite.
de vez em quanto gritam. e nascem folhas que
uma vez abertas não se conseguem mais fechar
III
Vem pela noite um bandido
com uma mão cheia de cinzas
para nos cegar.
eu disse.
O rapaz cheio de saúde
perde o trabalho,
sai de casa,fica ao frio da rua,
torna-se um sem-abrigo.
eu disse.
Vem o velho Adolfo
conhecedor de escravos
mete-os em muitos lugares da terra;
Vem a este tempo para blasfemar.
eu disse.
Grava no teu coração esta página de pedra.
Se ninguém cantar
enquanto dura tudo isto,
conhecemos a razão,
a água não lavará mais as nossas mãos.
Entre as coisas que sobreviverem
restarão as nuvens,os glaciares em degelo
que dirão de sua justiça.
eu disse.
maria azenha
1 comentários:
E tudo dito está. Resta-nos o continuar misterioso dos passos. Belo poema, querida!
Agradecemos pela visita na Diversos Afins.
Beijos!
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