Segunda-feira, 7 de Junho de 2010

Terceira folha




Terceira folha
DAS SOMBRAS DOS BOSQUES






" Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo"
(...)
António Ramos Rosa




I



Sou o relâmpago ferido
que se move para os grandes bosques do silêncio
meu peito levanta-se e cai
infinitamente só


há um búzio triste no crepúsculo das ilhas
quando fecho os olhos chove



II



Desde que a luz se fez artificial ficámos orfãos
juntaram-se nas cidades os solitários
para pôr em comum a solidão
- fumadores de papel, como teria dito Pavese -
puxados pela corda negra da fome

há livros de olhos postos no corpo. vêem-se de noite.
de vez em quanto gritam. e nascem folhas que
uma vez abertas não se conseguem mais fechar



III



Vem pela noite um bandido
com uma mão cheia de cinzas
para nos cegar.
eu disse.

O rapaz cheio de saúde
perde o trabalho,
sai de casa,fica ao frio da rua,
torna-se um sem-abrigo.
eu disse.


Vem o velho Adolfo
conhecedor de escravos
mete-os em muitos lugares da terra;
Vem a este tempo para blasfemar.
eu disse.

Grava no teu coração esta página de pedra.

Se ninguém cantar
enquanto dura tudo isto,
conhecemos a razão,
a água não lavará mais as nossas mãos.

Entre as coisas que sobreviverem
restarão as nuvens,os glaciares em degelo
que dirão de sua justiça.
eu disse.




maria azenha





1 comentários:

Fabrício Brandão disse...

E tudo dito está. Resta-nos o continuar misterioso dos passos. Belo poema, querida!

Agradecemos pela visita na Diversos Afins.

Beijos!